terça-feira, 23 de novembro de 2010

às duas múltiplas personalidades

não me fale de suas vidas fora daqui, já me é suficiente teorizar partes delas.
não compare nem me conte de seus amigos.
não me peça desculpas por tudo o que eu suporto.
mas me deixe em paz agora, longe de seu sofá preto, longe das persianas coloridas.
eu não consigo mais acompanhar os surtos de vocês.
deixei os olhos na chuva
pra tentar me limpar do que vi

os braços ficaram guardados numa gaveta
pra não ficarem tentados

os pés, mantive,
porque ainda tem muito chão pela frente.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

a vida na voz passiva
aos trancos, aos empurrões

sendo jogado de um lado pro outro
sendo olhado, mostrado, estranhado
estragado

esmagado

uma vida na voz passiva
com a cabeça sendo abaixada
e o 'tudo bem' sendo cuspido, resignado.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

e você poderia dizer que, ainda assim, tivemos sonhos suficientes que nos acalmassem o passar dos dias, e que os planos que fazíamos eram sinceros. mas de que me valeram esses amores impalpáveis se, no fim, seu calor me deixou com o frio sólido do chão?
I wish I could trust or, at least, believe.

sábado, 30 de outubro de 2010

they used to run away
always
and they could never be blamed for that
once everything changes constantly
and all we've been
is, now, just a picture in our past.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

a gente ainda se perde pelas ruas, pedindo que a lua páre no céu e não nos deixe sozinhos, que adie a luz do sol e nos poupe do dia seguinte.
a gente ainda procura conforto, mas acaba confundindo com prazer.
ainda falta um nome no meio de tantas palavras, um nome saindo de alguma boca maliciosa. faltam buracos que nos façam tropeçar.
a gente ainda precisa um do outro.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

se não é verdade, sou eu
me querendo enganar

tentando me convencer de que isso tudo não me afeta
que eu não preciso mais dessa merda

e que eram vocês
os errados
que não acreditavam na minha doença

nessa falta de controle

na dor em silêncio, na obsessão,
nos delírios dos dias
em que eu te via passar não muito longe
em que eu perseguia seu carro com outro motorista

mas não importa mais, não é?

porque eu nem preciso mais te ver
nem de longe, nem de perto
eu repito que não me afeta

só quando eu ainda quero.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

promessas jogadas
cobrindo meu corpo nu
durante o tempo livre que nós criávamos

palavras que, pra mim, não tinham
credibilidade
pelo costume, pela lógica que aprendi
nos cortes, na dor que se agarra
aos ossos
e te consome

promessas que eu acolho
não por inocência, não por esperança:

só pra sorrir um pouco.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

o olho que se cega pela mão que aponta pra longe
somos nós que nos comemos com dentes gastos pela raiva

depois de tanto tempo na carne viva
daqueles olhos, é meu sangue
que agora pulsa e escorre por
nossas ruas brancas

com o vidro estilhaçado
me cobrindo o rosto
e me protejendo de toda essa nossa
indiferença

eu te encaro

dizendo molhado que não páre na porta
que atravesse logo a sala, o corredor,

eu.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

cada detalhe, lembrança, memória rasa rasurada
          vozes e seu jeito
          e o jeito de todos os outros, seus olhos que me furam
seus dias que me páram
          seu carinho que me dói por dias

                    essa obsessão.

terça-feira, 29 de junho de 2010

desse amor estranho
sem regras
sem palavras concretas
que a gente grita noite adentro
(pra dentro e pra fora)

que a gente não explica nem tenta
apesar de tanta dúvida

que ninguém quer ver
mas ouve
porque nossa voz é mais alta na noite
vadia
porque nossa vontade, solta,
se espalha pelo vento

é dessa palavra sem sentido
que nós construímos
nosso significado
volátil.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

venho acordando no meio dos sonhos, com medo de me acostumar à sua voz, com medo de acordar e lembrar do pior.
eu acordo quando já é muito tarde, quando tudo o que eu queria estava na minha frente, no conforto do travesseiro ou no duro do chão. estava tudo ali. e eu acordo e imploro pra poder voltar ao mesmo lugar de antes, pra poder fechar os olhos e continuar de onde parei, fazendo força pra me ver lá, no meio, até o despertador tocar. ou mais.
mas nem os sonhos voltam no tempo. nem os sonhos, nem a gente, nem nada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

foi o tempo que tive
e os dias que passavam
em branco ou preto
sempre excessos
sempre demais, a inconseqüência que sabia muito bem o que fazer

o que deveríamos ter feito
juntos
ou, pelo contrário, o mais distante possível

o que ficou de mim em você
vice-versa
faca de dois gumes
raiva, fogo
e nosso sangue que vale mais que tudo isso

toda nossa casa feita de papelão
despedaçada pelo vento
que nós sopramos de mãos dadas, sem nem perceber

no final da noite é tudo nulo
é verdade, e você bem sabe que
there are no jokers in here

minha última desculpa é que
hoje falta poesia porque nosso tempo passou.
espera o tempo passar
que eu já fui te ver enquanto você dormia
que eu já fiz o café
já fiz fogueira e deixei seus cigarros na mesa de cabeceira

espera o tempo passar
que eu ainda tenho paciência

me deixa por perto, mas nem tanto,
aproveita
enquanto eu ainda não tenho nada melhor pra fazer.