segunda-feira, 9 de novembro de 2009

é quase um ano
é quase nada

somando as horas fica um vazio, só

tempos incongruentes, desconexos
de todo o resto
que poderíamos organizar cronologicamente

o vazio, vazio, e depois
o completo preenchimento que aperta o peito
aperta o útero
extravasa em raiva
e dor
e na impossibilidade de fugir

e as lágrimas mais sozinhas que a dona,
se juntando à chuva rala
mas ainda assim solitárias,
as lágrimas que pediam
companhia
que esperavam mais lágrimas na poça do chão,
que queriam motivos concretos
pra poderem morrer em paz.

domingo, 8 de novembro de 2009

três velas
músicas, músicas altas tentando encobrir
os gritos daqui de dentro

duas velas
a chuva lá fora, o cheiro
tanta coisa
que me volta, o gosto e o som

uma vela
as músicas já não encobrem nada
a chuva ficou mais forte
vento, vento, o tempo parado porque não se importa em correr
 nenhuma palavra comigo, só
esse aperto no fundo
pressentindo

escuro.
silêncio.
já só as nuvens no céu.
o sono não chega perto, o turbilhão daqui de dentro toma conta.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

não quero mais
me enrolar em seu corpo,
sentir cada pedaço
com meus dedos, te arrepiar com minhas unhas,
me jogar
no chão com você

não quero mais

nem as conversas fluem, nem os olhos se demoram,
nem minha paciência está aqui

o outro voltou (e logo vai embora), e
eu cansei
do que tava bom.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ele morreu com guelras, por onde o sangue escorria até o fim, para sempre. Guelras que não respiram; só cospem, ritmadas, a vida.
porra no meu
umbigo

eu não queria
acordar
do seu lado

deitei já pensando em não deitar,
sabendo que
era um erro
e que eu iria querer acordar
sozinha

fui pra cama pensando
numa fuga
rápida,
pós-sexo,
mas não deu

não confiava em ninguém
daquele quarto
(e éramos só nós dóis).

o noturno

naquela noite ele me
queria como
consciência
e confiou em mim. mas era
uma parte
que ele não deveria considerar,
a parte forte
que ri quando os outros
se ferram.
foi ela quem falou.
eu queria te testar e te foder,
e você fechou
os olhos
e me seguiu.

terça-feira, 27 de outubro de 2009


Um dia será tempo de ver dois velhos em silêncio, compartilhando não histórias, mas um profundo rancor pela vida. E, se tentarem se lembrar, não sentirão gostos passados, as cores que viram, nada. Ao fechar os olhos virá uma cena congelada, apenas. Sem som, desbotada. O Eterno Desperdício.

Feliz aniversário, mãe. Aproveita a vida.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

foi-se o primeiro
e eu não consegui conter um sorriso
por uns segundos

foi-se o primeiro não sei como,
não "souberam" falar

o susto e o riso
e talvez o futuro
vieram até mim com o primeiro
a ter coragem

coragem suficiente pra admitir que é uma merda,
coragem tanta que
vai ser sempre lembrada por covardia
do louco
da lua cheia

e os bons moços
vão se vestir de preto e ficar sérios
e depois vão dizer
que era inevitável, apesar de seus esforços

ele foi o único até agora a rir nas suas caras

foi o primeiro
e eu bem sei que quero ser a próxima.

domingo, 25 de outubro de 2009

te faço e refaço e nada muda,
continua como da
primeira vez

talvez eu que mude, eu que me ajeite pra
sentir algo
nova quando te vejo,
pra falar diferente e fazer melhor

você continua o mesmo,
mesmo eu pensando e repensando toda a sua lógica,
mesmo que eu escreva e fale
e minta pra mim
que agora eu te entendo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

dormindo em uma cama
de colcha branca

sonhando com um fundo preto
e olhos
me encarando sem piscar

um fio do seu cabelo no meu travesseiro,
seu cheiro de fumo pungente
preso nas minhas roupas
me alfinetando o dia todo

até a próxima
lavagem,
até o próximo encontro,
até, meu bem

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

o olho do furação

tudo o que eu tinha era um papel
que talvez
não significasse nada

ali na minha frente, aberto,
com sua caligrafia,
caneta preta,
e eu cuidando daquilo como se fosse
mágico

sem deixar amassar nunca

era um símbolo pra mim,
meu calmante

até que eu cansei da calmaria
e amassei tudo,
na fissura, a mão tremendo,
AMASSANDO TUDO

o caos assusta, não?
assusta.

mas faz mais sentido pra mim.

domingo, 18 de outubro de 2009

tá certo, agora eu falo:
a perna batendo descontrolada
a raiva
sem fundamento preciso,
só um acúmulo

uma loucura
vontade de gritar gritar gritaaaaaaar

gritar no meio do silêncio
assustar todos vocês

e te machucar

eu preciso disso, te deixar semi-morto
só porque você achava que
nunca se preocuparia com o que eu penso
das suas roupas
da sua vida
do seu jeito de andar e de transar

não que eu me importe.

sábado, 10 de outubro de 2009

saturada

se você me tocar
mais uma vez

ou soprar alguma coisa em meu ouvido

tentar me esfriar ou
esquentar

vai tudo
cair

e ficar caído, inerte, no fundo do copo,
como
um morto

porque eu já não suporto
mais nada seu

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

a solidão envolta pela fumaça
de seu cigarro
("eu não sei o que vi aqui, eu não sei pr'onde ir")
observava o casal
abraçado no sofá
("eu não sei pr'onde a gente vai andando pelo mundo")
e quando eles foram
embora,
ela sentou no sofá
("querendo ver um sol que não chega, querendo ver alguém que não vem")
tentando sentir o cheiro
deles
("não vem...")
tentando fazer
parte
de alguma coisa qualquer.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Então prove do ar que eu te sopro
e sangre pra mim,
quando eu te acordar no
meio da noite, chorando a terra da saudade,
a poeira branca espalhada pelo quarto,
nossas fotos coladas no teto e os livros abertos no chão,
grifados e circulados,
montando o que eu queria lhe escrever
- mas a mão, tremendo, não permitia -

Sangra pra mim,
assim como eu sangrei pra você, quando
tentei arrancar um pouco
da dor
cortando minha pele e inspirando o cheiro de ferro

Eu enxergo no escuro, te observo do canto
dormindo um sono inocente,
esperando acordar na mesma vida de ontem

Eu não consigo dormir, não há mais amanhã
nem dias iguais, eu matei meu amor
com um prego enferrujado de amores passados
- você um dia vai ver, o amor oxida;
tão necessário e mortal quanto o ar -

Talvez você acorde assustado com a frieza
da minha mão:
desculpa, eu sou fria, mesmo
e já adiei isso muito

ACORDA, AGORA!
- e sangra pra mim.