segunda-feira, 20 de julho de 2009

hospício

o peso
das decepções e vontades perdidas
pelas ruas, acumuladas
ao longo dos anos e revividas
dia após dia,
reforçadas,
vívidas.

as idéias e os ideais
incompreendidos
(tão bem elaborados)
jogados fora, no lixo,
com olhares de desprezo vazios

passantes ocupados que
nem reparam
naquele grito rouco do mudo bem-articulado
que, numa última tentativa,
se joga na frente do
carro.

dizem estar louco, buzinam
com uma RAIVA que acaba ao virar a esquina,
indiferentes (será apenas mais
um caso, uma piada na roda
de amigos)

é
uma morte lenta,
torturante,
estar sozinho.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

foge enquanto ainda é tempo

não fica igual a ele

quarta-feira, 8 de julho de 2009

esse que vos fala sabe
do medo e da angústia

sabe do efêmero
amor
cercado de sombras magras
de desejo

esse que vos fala viu
o sentido virar
loucura
em rostos iguais a máscaras

mas
all in all, there's something to give
all in all, there's something to do
all in all, there's something to live.

sábado, 4 de julho de 2009

hipotético

subidas íngremes
moças cheias de sacolas
comprando uma manhã de domingo
completa

nos fones uma música tocava
pra me tirar dali
me lembrar de outros dias
outros tempos
pessoas que poderiam ser
o antídoto

desenvolvendo aquela teoria que me fascina

talvez haja cura, sim,
em dias novos
entregas
palavras
verdades

mas o que eu queria mesmo era que um
passado
me acordasse na noite
e me desse vontade
coragem
ânimo
e uma boa foda, pelos velhos tempos

- entendi aquela aula, finalmente

então eu voltaria pra crise
e teria alguém na cabeça

ficaria sufocada
e morreria debaixo do seu
travesseiro -

outras músicas, outros lugares,
outras gentes
pra eu poder fechar minha teoria.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

[...]

do poço
em que eu fiquei por tanto tempo,
apesar de tão breve motivo,
só conto partes

o resto ficou aqui, ainda,
pra mais alguém cair

e a corrente continuar.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

não era você, mas eu imaginava
que fosse

fechava
os olhos e te imaginava lá, comigo,
com
muita
força

tanta força
que comecei a me convencer
de que
era você mesmo,
que era você quem estava ali

você deveria estar
ali

e eu dedicava cada
suspiro
movimento
e sorriso
pra você

era tudo seu

mas quando terminou eu tive que abrir o olho
e, porra,
fiquei com nojo
de mim

depois mandei
ele
sair de perto

e você bem que podia
ir junto
e me deixar sozinha.
poderia falar tudo, poderia
falar que
não ligo

poderia não ligar

mas
algumas coisas têm que ser segredo,
têm que ser
pra eu me manter
autônoma

fechar um pouco essa boca grande

fechar um pouco
a cara

selecionar



eu quero ser só minha.

sábado, 27 de junho de 2009

não vou te olhar
no olho
agora:

é fácil demais perceber intenções
e pensamentos
que não deveriam estar aqui

e nem é nada sobre o olho ser
a janela da alma, não, não é
isso.
o problema é crescer
a vontade
e eu ver um espelho na
sua pupila

tô tentando me controlar, aqui, então eu
mudo a direção, sigo o
caminho de uma formiga no chão
ou reparo nos detalhes
do seu tênis

silêncio

riso

beijo.

necrofilia

morre
que eu te espero,
porque
sou eu quem vai
te colocar a última roupa,
te encher de flores
- pra lembrar o que morreu -
e te guardar dentro da terra

dentro de mim.

7 andares

obra parada por falhas estruturais,
esperando um
novo engenheiro pra continuar
e fazer certo

não tem barulho mais
nem gente andando de um lado
pro outro
ouvindo música na noite
gritando, rindo, suando

mas um boné ficou
pendurado
no fio esticado pra amarrar aquelas telas
azuis e verdes,

e fica balançando sozinho
no vento.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

SOBRE TODAS AS COISAS
ELE NÃO DIZ
NADA
falandosempararnemprarespirar

a vida, o amor,
o mundo, a política, corrupção
violência tráfico trânsito desemprego revolução

REVOLUÇÃO?

você fala fala fala fala fala
e eu sei que não sabe de nada.
não me
engana
nem me impressiona


...


seria bom poder acreditar na sua barba,
mas
isso

não
tem significado pra mim.

4:30 A.M.

the fields rattle
with red birds;
it is 4:30 in
the morning,
it is always
4:30 in the morning,
and I listen for
my friends:
the garbagemen
and the thieves,
and cats dreaming
red birds
and red birds dreaming
worms,
and worms dreaming
along the bones of
my love,
and I cannot sleep,
and soon morning will come,
the workers will rise,
and they will look for me
at the docks,
and they will say,
"he is drunk again,"
but I will be asleep,
finally,
among the bottles and
sunlight,
all darkness gone,
my arms spread like
a cross,
the red birds
flying,
flying,
roses opening in the smoke,
and
like something stabbed and
healing,
like
40 pages through a bad novel,
a smile upon
my idiot's face.

C. B.

terça-feira, 16 de junho de 2009

insônia

deitar na cama e esperar pra dormir

(ficar de olhos fechados tem
doído mais
que ficar acordada)

procurar qualquer feridinha pra arrancar a casca

(nessa necessidade-mania
de não deixar
nada cicatrizar)

porque nos sonhos as pessoas são só nomes,
independentemente
de corpo
e rosto
ou voz.

sábado, 13 de junho de 2009

ainda é cedo, se você pensar
no que normalmente é tarde
pra gente

estamos conversando
depois de tanto tempo longe

falando de amores
tentando buscar apoio em alguém
e é assim

e depois o papo começa a virar brincadeira, provocação
é assim, mesmo

mas fica nisso.

cada um de nós escrevendo recados escondidos pro outro
sem saber se vai ser lido
se vai ser entendido

sem ter certeza se ainda faz algum sentido
isso tudo,
todo o esforço e o medo
a paciência e as fugas,
no fim.

e depois o início de novo
e tudo outra vez.

domingo, 7 de junho de 2009

te imagino velho
mais aberto, depois de já ter passado por tanta coisa.
imagino que você fale mais
do que sente,
mesmo sentindo vergonha.
como o velho daquele filme italiano,
que disse
se achar patético quando fala coisas do tipo.

vivendo de sonhos, os dois

imaginando cartas pra uma bonita
qualquer
mas sem coragem de enviar.

pensando no que passou?
pensando no que quer fazer
ou no que queria ter feito?

depende de agora, bem.
depende dos seus colhões,

você ainda os tem?